Serge dirigiu-se a mim em francês primeiramente. Eu estava em um restaurante pequeno, e comia sozinho à mesa. Tendo então visto que o não compreendia, mudou para italiano, então tentou dois outros idiomas que eu não consegui identificar. Na quinta tentativa respondi-lhe adequadamente, e ele sorriu satisfeito, enquanto seu rosto desaparecia por detrás da fumaça de um fino cigarro. Conversamos por alguns minutos, e ofereceu-me os serviços de guia e intérprete. Então bebemos chá, fumamos alguns cigarros, e saímos do pequeno restaurante. Concordei que me acompanhasse, e dei-lhe um pouco de dinheiro.
"Em breve há de anoitecer, e certamente quererá conhecer o centro à noite. Acompanha-me até casa, para que eu tome um banho, e depois vamos para o seu hotel. Às oito horas há um concerto, boa música, e depois podemos beber alguma coisa". Não tinha planos, então concordei novamente. Descíamos uma rua estreita, com casinhas coloridas de concreto de ambos os lados, coladas umas às outras, bastante bonitas debaixo do sol. Serge chamou-me a atenção para uma pequena aglomeração de homens e mulheres à frente, cinqüenta metros. "Já viu uma execução?", ele disse. Os homens à frente amontoavam-se uns sobre os outros, embora houvesse poucos ainda. "Execução?", perguntei. "Sim. Aqui a punição para certos delitos é pública. Os guardas que eu conheço dizem que assim o é porque as execuções colocam idéias pacíficas no espírito do povo. Eu pessoalmente acho que simplesmente não há muito que fazer por aqui, com todas essas proibições. Não se pode jogar cartas, porque é um delito grave. Nem beber demais, porque quando se bebe demais se corre o risco de cometer algum delito grave. Como se não bastasse, só se pode trepar em nome de Deus. E como conseqüência direta, as putas estão cada vez mais escassas, porque a putaria é um delito grave. Portanto cobram bastante, o que acaba por não ser um bom negócio. Mas você vê... está aqui há quanto tempo mesmo? Dois ou três dias, não é? Você tem sorte, camarada. O lugar está abrindo as estranhas para você cedo. As coisas demoraram um pouco mais para mim, muito embora hoje em dia já possa dizer que não há mais muito que ver.", "E você faz o que aqui?", "A comida desse lugar é fantástica. Ademais, posso ir-me embora em hora que me apraz.". Assenti, e descemos o resto da rua.
Quando atingimos o fim da rua, havia já muitos homens e muitas mulheres que se afanavam no local. O sol levaria ainda bastante tempo a se por, no entanto alguns homens acendiam lanternas, com palitos de fósforo compridos. A ação era imitada por alguns outros homens que também traziam lanternas e palitos de fósforo compridos. Duas lanternas maiores, fixadas em pedaços de madeira, mais ou menos quatro metros de distância um do outro, consistiam a iluminação oficial. Nesse momento eram acesas por guardas com palitos de fósforo ainda mais longos, não sem certa dificuldade. Havia, podia-se ver em meio às aberturas ocasionais entre os corpos das pessoas, algo que parecia um palanque, à direita das duas lanternas oficiais.
Um brado súbito, que se estendeu por alguns segundos, anunciou a chegada do condenado. "Não sei se quero ver isto, Serge". "E voltar para casa falando do sol? Acredita. Toma-se um gosto pela coisa, depois de um tempo.". Deixei-me ficar. Um homem velho subiu ao palanque. Trajava uma espécie de uniforme. A multidão silenciou, e ele principiou um discurso que durou cerca de dez minutos, durante o qual todos os outros se mantiveram calados. "É um estuprador. Vão empalá-lo", disse Serge. Escutei, mas não compreendi de pronto, porque à minha esquerda, não muito distante, uma mulher chorava copiosamente, amparada por dois senhores e uma velha. O pequeno grupo era visivelmente pobre. Dois guardas aproximaram-se, e puseram-se a observá-los, mantendo alguma distância. Então Serge despertou-me da cena, com o cotovelo. A multidão recomeçou o brado. "Vão apresentar o condenado", disse. Então o velho do palanque ergueu o criminoso.
Era um menino. Estava fortemente amarrado por uma longa corda, as mãos à frente, erguidas até a altura dos ombros. Tinha quanto mais cinco ou seis anos. A expressão que trazia no rosto movia-se, como uma maré, entre terror absoluto e não menos absoluta apatia. A mulher que estava à minha esquerda, à vista do menino, projetou-se com selvageria para frente, e com isto libertou-se dos dois homens que a amparavam. Os guardas cortaram-lhe o caminho, e um deles atingiu-a no rosto com algum objeto. Ela tropeçou e foi ao chão, e um dos guardas pegou-a pelos braços, e conduziu-a para longe, mantendo os dois senhores razoavelmente afastados, bem como a velha. Então desapareceram de vista. O velho do palanque continuou o discurso, sem que percebesse o que ocorria, aparentemente, e sobreveio novamente o silêncio.
"Por Deus, Serge, vão empalar o menino!?", eu disse. Ele levou os dedos aos lábios. O velho falou até que fosse noite. "Você não vai acreditar, meu amigo", disse Serge, por fim, sem conter certa excitação que lhe deformava a face; Ter-me-ia, creio, oferecido pipocas naquela hora, caso as tivesse. "Havia cinco anos fora capturado um estuprador. Este estuprador foi condenado à morte por empalação, mas enforcou-se um dia antes de ser efetuada a pena. Não me surpreende. Você já viu uma dessas estacas que eles usam para empalar pessoas? Asseguro-lhe que homem nenhum se felicitaria com uma coisa dessas no rabo. Mas agora vem a parte interessante. Pouco mais tarde, no mesmo dia, nasceu este menino duas casas rua acima, com uma marca no pescoço. Os guardas, que estavam habituados aos pais do menino habituaram-se também ao menino, e não tardou até que algum deles percebesse a marca, e juntasse as peças. Esperaram pacientemente alguns anos, até que começasse a falar com o mínimo de coerência, então entrevistaram o menino algumas vezes, e identificaram-no como o homem que lhes escapara, cinco anos antes.". "Isso é absurdo, Serge.", disse, quando ele terminou de relatar-me o que o velho falara. "Não sei o que é absurdo, camarada. Talvez você esteja sendo absurdo, não sendo absurdo como todo o resto".
Meu primeiro impulso foi derrubar uma lanterna, ou qualquer coisa que em pouco tempo começasse uma confusão, mas não o fiz. Deixei Serge onde estava, e parti, discretamente. A julgar pelos gritos dos homens e mulheres, repentinamente altos e contínuos e não menos repentinamente baixos e espaçados, tudo começou sem muitas mais delongas, e em pouco tempo tudo estava acabado. Dirigi-me ao hotel, e arrumei minhas malas. A lua talvez estivesse alta e gorda quando entrei no carro, mas não tinha a certeza de vê-la (...)
quarta-feira, 1 de julho de 2009
O Condenado
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